Alex Bores e o embate entre Silicon Valley e a regulação da IA nos EUA
Alex Bores, ex-funcionário da Palantir e atual membro da Assembleia de Nova York, protagoniza um dos confrontos mais intensos entre o setor de tecnologia e a política americana. Ele foi um dos principais responsáveis pela aprovação da RAISE Act, uma das legislações mais rigorosas sobre inteligência artificial (IA) nos Estados Unidos, aprovada em 2025. Agora, sua candidatura ao Congresso enfrenta forte oposição de um super PAC financiado por grandes nomes do Vale do Silício, incluindo o cofundador da Palantir.
Quem é Alex Bores e qual sua relação com a tecnologia
Bores, de 35 anos, tem mestrado em ciência da computação e atuou na Palantir, empresa conhecida por seus trabalhos controversos com dados e agências governamentais, antes de ingressar na política. Durante sua passagem pela Palantir, ele liderou projetos como o desenvolvimento de sistemas para o Departamento de Justiça que ajudaram a recuperar US$ 20 bilhões em acordos judiciais relacionados à crise financeira de 2008, rastreando padrões em empréstimos problemáticos.

Apesar de seu histórico em tecnologia, Bores destaca que sua postura política é crítica em relação ao modo como a indústria lida com a inovação, especialmente no campo da IA. Ele defende uma regulamentação rigorosa para garantir segurança e transparência no desenvolvimento dessas tecnologias.
A RAISE Act: um marco na regulação estadual da IA
Como coautor da RAISE Act, Bores ajudou a criar uma legislação que impõe requisitos a grandes desenvolvedores de IA, como OpenAI, Google, Meta e Anthropic. A lei exige que essas empresas publiquem seus protocolos de segurança, mantenham planos de segurança atualizados e comuniquem incidentes críticos ao governo estadual. Além disso, estabelece uma agência reguladora em Nova York para monitorar o avanço da IA e recomendar novas normas.
Essa iniciativa destaca-se no cenário nacional, onde a política federal sobre IA ainda é praticamente inexistente. O presidente Donald Trump chegou a assinar um decreto executivo contra legislações estaduais como a RAISE Act, ameaçando cortar financiamentos federais, como o BEAD, que visa ampliar o acesso à internet em áreas rurais, e instruindo ações judiciais contra estados que adotassem regulações independentes.
Conflito com o Vale do Silício e a campanha ao Congresso
O posicionamento de Bores em favor da regulação da IA o tornou alvo de um super PAC chamado Leading the Future, financiado por figuras como Greg Brockman (OpenAI), Joe Lonsdale (Palantir) e a firma de capital de risco Andreessen Horowitz. Esse grupo lançou uma campanha agressiva para impedir sua eleição ao Congresso, argumentando que sua abordagem regulatória prejudicaria a liderança americana em inovação e empregos no setor.
Bores interpreta esses ataques como um sinal de desespero das grandes empresas de tecnologia, que percebem nele uma ameaça à sua influência e modelo de negócios. Curiosamente, a repercussão dessas campanhas acabou ampliando a visibilidade da questão da regulação da IA entre eleitores que, inicialmente, não tinham interesse na política tecnológica.
Do Vale do Silício para a política: uma trajetória de engajamento
A decisão de Bores de deixar a Palantir ocorreu em meio à controvérsia sobre contratos da empresa com o ICE (agência de imigração dos EUA), especialmente durante a administração Trump, quando houve tentativa de uso da tecnologia para deportações. Ele se recusou a apoiar esses usos e optou por sair da empresa.
Após passar por startups focadas em combate à lavagem de dinheiro e na distribuição de auxílio durante a pandemia, Bores se candidatou e venceu um assento na Assembleia de Nova York em 2022. Ele atribui seu sucesso à possibilidade de formular políticas upstream, ou seja, antecipar e criar regras eficazes, em vez de tentar remediar problemas com tecnologia posteriormente.
Bores destaca a escassez de representantes com formação técnica nos legislativos americanos, apontando que ele é o primeiro democrata de Nova York com mestrado em ciência da computação eleito para qualquer cargo e que no Congresso há menos de 1% dos membros com esse perfil — um déficit preocupante diante do avanço acelerado das tecnologias.
Implicações práticas e o futuro da regulação da IA
A experiência de Bores evidencia a complexidade do debate sobre inteligência artificial: enquanto grandes empresas buscam evitar regulações que possam limitar seu crescimento, há uma pressão crescente por controles que garantam segurança, ética e proteção aos cidadãos. A RAISE Act serve de modelo para outras iniciativas estaduais e reforça a necessidade de um diálogo mais profundo entre setor privado, governo e sociedade civil.
O embate em Nova York também revela como a política local pode influenciar o cenário nacional, especialmente em temas tecnológicos que ainda carecem de uma regulação federal robusta.