China pode ter acessado o Mythos, da Anthropic, revela Casa Branca

Em 12 de junho de 2026, às 17h21 (horário da costa leste dos EUA), a Anthropic recebeu uma carta do Departamento de Comércio dos Estados Unidos que mudaria radicalmente o cenário da inteligência artificial. Assinada pelo secretário Howard Lutnick, a ordem exigia que a empresa suspendesse o acesso aos seus modelos mais avançados — Fable 5 e Mythos 5 — para todos os cidadãos estrangeiros, inclusive os próprios funcionários da Anthropic que não fossem americanos.
Incapaz de separar usuários em tempo real, a Anthropic tomou uma decisão sem precedentes: desabilitou ambos os modelos mundialmente. É a primeira vez que um grande laboratório de IA é forçado a recolher um produto já em produção por uma diretiva de controle de exportação.
A suspeita de acesso chinês
Segundo o jornalista Terrence O'Brien, do The Verge, a Casa Branca teria suspeitas de que um grupo ligado à China teve acesso ao Mythos. Se confirmado, isso representaria um grave risco à segurança nacional americana.
O governo chinês poderia, em tese, usar técnicas de destilação — um método no qual uma IA "aluna" é treinada para replicar o comportamento de um modelo mais avançado — para fazer engenharia reversa do Mythos 5.
A preocupação central do governo americano girava em torno de um jailbreak (contorno de segurança) demonstrado nos modelos Fable 5 e Mythos 5, supostamente por outra empresa. A técnica permitiria que o modelo lesse códigos e identificasse vulnerabilidades de software — algo que, segundo a Anthropic, já está disponível em outros modelos do mercado.
"Discordamos que a descoberta de um jailbreak restrito deva ser motivo para recolher um modelo comercial implantado para centenas de milhões de pessoas", afirmou a Anthropic.
Um precedente perigoso
O mais surpreendente neste caso é a natureza da ferramenta legal utilizada. Controles de exportação normalmente são usados para bloquear vendas futuras de tecnologia sensível, e não para remover retroativamente um serviço que já está no ar.
A Anthropic classificou a situação como um "recall de produto", e não uma mera restrição comercial. A empresa declarou que apoia a supervisão governamental, mas apenas através de "um processo estatutário transparente, justo, claro e fundamentado em fatos técnicos".
Contexto político e militar
Este não foi o primeiro embate entre a Anthropic e o governo Trump. A administração já havia tentado bloquear o lançamento desses modelos anteriormente, sem sucesso. Além disso, houve um conflito de alto perfil com o Pentágono resolvido no início do ano.
Ironicamente, a NSA (Agência de Segurança Nacional dos EUA) já estaria usando o Mythos de forma ofensiva em operações cibernéticas, o que enfraquece o argumento do governo de que o modelo representa um risco de segurança incontrolável.
Gary Marcus, crítico de IA, apontou outra contradição: restringir pesquisadores nascidos na China poderia empurrá-los de volta ao país asiático, minando justamente o objetivo americano de manter a liderança em inteligência artificial.
IPO e litígios
A Anthropic está em processo de preparação para uma oferta pública inicial (IPO) e já contratou o escritório de advocacia Wilson Sonsini para assessorá-la. Disputas regulatórias como esta podem complicar o processo. A empresa também está processando a administração Trump em uma disputa separada sobre uma lista negra do Pentágono.
O que está em jogo
Este caso estabelece um precedente preocupante: uma ferramenta de controle de exportação foi reaproveitada para remover um serviço de IA ativo e voltado ao consumidor. Se esse padrão se mantiver, outros laboratórios — OpenAI, Google DeepMind, Meta — podem enfrentar intervenções semelhantes.
O desfecho dependerá de como a disputa entre a Anthropic e o governo for resolvida. Se transformar em um modelo para ações futuras, a era da autorregulação da indústria de IA pode ter chegado ao fim.
Fontes: The Verge, The Street, Semafor