Como a IA Agrava a Dupla Jornada das Trabalhadoras da Economia Gig na Indonésia

A inteligência artificial (IA) é frequentemente celebrada como o futuro do trabalho, destacando-se por sua eficiência, inovação e suposta neutralidade. No entanto, para muitas mulheres que atuam na economia gig na Indonésia, a IA representa uma fonte crescente de pressão e desigualdade.
O que foi revelado pela pesquisa sobre IA e trabalhadoras na Indonésia
Pesquisas recentes conduzidas por Suci Lestari Yuana, professora da Faculdade de Ciências Sociais e Políticas da Universitas Gadjah Mada, evidenciam o fenômeno que ela denomina como "colonialismo da IA". Esse termo descreve como a influência colonial persiste na atualidade por meio da tecnologia e dos sistemas digitais que mantêm relações de poder desiguais. Plataformas digitais baseadas em IA, muitas vezes originárias do Norte Global, exploram a força de trabalho informal do Sul Global, especialmente na Indonésia, onde serviços de transporte e comércio eletrônico utilizam trabalhadores informais, mas transferem a eles os riscos e responsabilidades.

Quem pode usar e como funciona o sistema
Plataformas como Gojek, Grab, Maxim e Shopee oferecem oportunidades para motoristas e entregadores trabalharem por demanda, utilizando aplicativos para se conectar com clientes. Contudo, esses trabalhadores são classificados como parceiros, não como empregados, o que significa ausência de salário mínimo, licença médica ou maternidade. A remuneração depende exclusivamente das tarefas concluídas e da avaliação algorítmica, que não considera as demandas do trabalho doméstico e de cuidados majoritariamente assumidos pelas mulheres.
Impacto prático para as trabalhadoras
- Dupla jornada: Mulheres como Lia, entregadora de alimentos de 33 anos, precisam conciliar o trabalho remunerado com as responsabilidades domésticas e de cuidado, que são invisibilizadas pelo algoritmo.
- Pressão por disponibilidade constante: Os algoritmos recompensam a disponibilidade ininterrupta e definem metas rígidas em janelas de tempo específicas, dificultando que mulheres com obrigações familiares possam cumprir as metas e receber bônus.
- Penalização por pausas: Quando Cinthia, mãe solteira e entregadora, adoeceu e ficou afastada, percebeu uma redução nas ofertas de trabalho ao retornar, demonstrando como o sistema penaliza vulnerabilidades de saúde.
- Segurança ignorada: A segurança das mulheres é negligenciada pelos algoritmos, que não levam em conta riscos nem assédio, como o enfrentado por Yanti, motorista de 43 anos, que sofre cancelamentos frequentes por ser mulher e evita trabalhar à noite por questões de segurança, perdendo incentivos.
- Trabalho excessivo e precarização: Durante a pandemia de COVID-19, apesar de serem consideradas essenciais, as trabalhadoras tiveram queda drástica de renda e foram forçadas a jornadas longas para compensar perdas, sem proteção social adequada.
Disponibilidade e acesso: a realidade das trabalhadoras
Essas plataformas estão disponíveis para qualquer pessoa com um smartphone e veículo, mas não oferecem suporte formal ou proteção social. O acesso é fácil, porém o custo humano é alto, especialmente para mulheres que precisam equilibrar múltiplas responsabilidades e enfrentam discriminação implícita dos sistemas algorítmicos.
Como as trabalhadoras enfrentam os desafios
Diante desse cenário, as trabalhadoras criaram redes de solidariedade por meio de grupos no WhatsApp e Telegram, onde compartilham informações sobre mudanças nas políticas das plataformas, alertas sobre clientes inseguros, estratégias para lidar com alterações algorítmicas e apoio financeiro e emocional. Essa solidariedade se manifesta como uma forma de resistência cotidiana e uma ética feminista de sobrevivência baseada no apoio mútuo.
Impacto prático para o leitor
Este estudo destaca a necessidade de repensar o uso da IA na economia gig, especialmente no que diz respeito à equidade de gênero e proteção dos direitos trabalhistas. Para leitores interessados em tecnologia, direitos trabalhistas e justiça social, a pesquisa serve como um alerta sobre os riscos do uso indiscriminado de algoritmos sem considerar contextos sociais e humanos. É fundamental apoiar iniciativas que promovam transparência algorítmica, reconhecimento e proteção das trabalhadoras e trabalhadoras informais.