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Como a IA simplifica demais a rewilding e ignora sua complexidade real

27 de março de 2026
13:54
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Como a IA simplifica demais a rewilding e ignora sua complexidade real

A inteligência artificial (IA) tem sido cada vez mais utilizada para visualizar cenários ambientais, incluindo projetos de rewilding, que buscam restaurar ecossistemas naturais. No entanto, um estudo recente conduzido por pesquisadores da Universidade de Aberdeen, no Reino Unido, revela que as imagens geradas por IA apresentam uma visão excessivamente simplificada e "domesticada" desses ambientes, deixando de capturar a verdadeira complexidade e desordem que caracterizam a rewilding na prática.

Imagens padronizadas e idealizadas

Ao solicitar que chatbots de IA, como ChatGPT e Gemini, criassem imagens de paisagens rewilded na Inglaterra e na Escócia, os pesquisadores observaram padrões recorrentes. As imagens apresentavam colinas distantes, vales com prados abertos ou charnecas, riachos ou lagoas, iluminação dourada e animais "simpáticos" como cavalos e veados. Notavelmente, não havia presença humana nem estruturas construídas, tampouco espécies consideradas controversas, como lobos, linces, ursos ou bisões.

Imagem relacionada ao artigo de The Conversation AI
Imagem de apoio da materia original.

Essas representações foram descritas pelos autores como "bucólicas, ordenadas e harmoniosas", mas também "monótonas e sem risco". A ausência de elementos como vegetação densa, áreas de mato ou processos naturais como decomposição e interações animais mais complexas resulta em imagens que não refletem a verdadeira dinâmica dos ecossistemas rewilded.

IA precisa de instruções específicas para mostrar a realidade

Embora a IA consiga criar imagens ecologicamente mais precisas, isso ocorre apenas quando recebe comandos detalhados e específicos. Um exemplo é uma imagem gerada pelo Gemini que retrata a "bagunça ecológica" típica de um ambiente rewilded, incluindo arbustos espinhosos, árvores auto-semeadas, grama alta, troncos apodrecidos, lamações feitas por herbívoros e vegetação densa e variada. Essa imagem reflete melhor a diversidade estrutural e os processos naturais presentes nessas áreas.

Contudo, a maioria dos usuários não fornece esse nível de detalhe, o que leva a um resultado padrão e simplificado. Isso evidencia que, para obter imagens realistas, é necessário já ter um conhecimento aprofundado do que constitui um ambiente rewilded.

Influência das fontes de dados e impacto na percepção pública

Os pesquisadores apontam que a IA baseia suas criações em fontes disponíveis na internet, como sites de ONGs e iniciativas ambientais que promovem a rewilding, além de imagens em redes sociais. Essas fontes frequentemente apresentam uma visão idealizada, com perspectivas aéreas e animais "carismáticos" que agradam ao público, omitindo espécies menos populares, processos naturais desordenados e a presença humana.

Essa sanitização visual pode reforçar uma expectativa pública de que a natureza restaurada deve ser sempre limpa, arrumada e visualmente agradável, dificultando a aceitação da realidade mais caótica e menos estética dos ambientes rewilded. O fenômeno é conhecido como "reação estética" e tem sido um desafio crescente para projetos de recuperação ambiental, especialmente em áreas urbanas.

O desafio histórico da representação da natureza

Desde os tempos antigos, a humanidade tem moldado sua percepção da natureza por meio da arte e da cultura, valorizando certos aspectos e ignorando outros. Por exemplo, no século XVIII, o escritor Daniel Defoe descrevia as áreas selvagens da Inglaterra como inúteis e inóspitas, enquanto o movimento romântico do século XIX passou a venerar paisagens sublimes e dramáticas.

No entanto, a rewilding moderna enfrenta o desafio de lidar com paisagens que muitas vezes são consideradas "feias" ou "bagunçadas", com vegetação rasteira, arbustos densos e ausência de ordenação humana. Essas características são essenciais para a biodiversidade, mas destoam da ideia tradicional de beleza natural.

Implicações práticas para projetos de rewilding

A visão simplificada gerada pela IA pode influenciar negativamente a percepção pública e a aceitação dos projetos de rewilding, especialmente se as pessoas esperam ver ambientes sempre bonitos e organizados. É fundamental que educadores, ambientalistas e gestores de projetos comuniquem a verdadeira natureza desses ecossistemas, destacando sua complexidade, diversidade e processos naturais, mesmo que isso signifique lidar com a "bagunça" inerente à restauração.

Além disso, o uso consciente da IA para gerar imagens deve considerar a necessidade de prompts detalhados e contextualizados, para evitar a perpetuação de visões estereotipadas e limitadas da natureza.

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