Especialista explica se imagem de Trump como Jesus foi blasfêmia

Na última semana, Donald Trump publicou em sua rede social Truth Social uma imagem gerada por inteligência artificial que o mostrava vestido com roupas brancas, estendendo a mão luminosa sobre um homem doente ou falecido em um leito hospitalar, numa clara alusão à figura messiânica de Jesus Cristo. A postagem foi amplamente interpretada como uma representação de Trump como uma figura semelhante a Jesus, o que gerou críticas e acusações de blasfêmia entre diversos grupos religiosos, incluindo conservadores cristãos.
O que é blasfêmia segundo a tradição religiosa?
Blasfêmia, dentro do contexto cristão, é um conceito fluido e historicamente variável, mas pode ser resumido como qualquer discurso, pensamento ou ação que demonstre desprezo ou zombaria a Deus e a assuntos sagrados. Origina-se do Antigo Testamento, onde blasfemar contra o nome do Senhor era considerado crime grave, passível até de pena de morte. No Novo Testamento, o conceito se ampliou para incluir o desprezo ou rejeição a Jesus Cristo, entendido como divino.

Na Idade Média, afirmar ser Jesus ou atribuir-se poderes exclusivos dele era considerado blasfêmia, com punições severas para quem se autodenominasse “Cristo”. Assim, a imagem de Trump se apresentando como Jesus seria, sob essa ótica, claramente blasfema.
Blasfêmia como crime e ofensa social
Do século XVII em diante, a blasfêmia passou a ser vista não apenas como ofensa a Deus, mas também como ameaça à ordem social e política. Na Europa e nas colônias americanas, leis contra a blasfêmia foram criadas e aplicadas, incluindo pena de morte em alguns casos. Nos Estados Unidos, apesar da Primeira Emenda garantir a liberdade de expressão, leis contra blasfêmia ainda existiram por muito tempo e só foram consideradas inconstitucionais após a Segunda Guerra Mundial.
Atualmente, embora a blasfêmia não seja crime na maioria dos países ocidentais, algumas legislações estaduais americanas e leis em países como Austrália e Nova Zelândia ainda mantêm dispositivos legais relacionados ao tema, embora com aplicação limitada.

Blasfêmia em outras religiões: o caso do Islã
No Islã, não há um termo exato equivalente a blasfêmia, mas a ideia de “palavra de incredulidade” ou insulto a Deus, ao profeta ou à tradição islâmica é tratada de forma semelhante. Por exemplo, a recente declaração irônica de Trump “Praise be to Allah” foi considerada ofensiva por grupos muçulmanos nos Estados Unidos, sendo vista como blasfema segundo a perspectiva islâmica. Em muitos países islâmicos, leis contra a blasfêmia são rigorosamente aplicadas.
Qual o impacto da imagem de Trump?
Se a postagem de Trump teve a intenção de se apresentar como uma figura divina ou messiânica, muitos cristãos têm o direito de considerá-la blasfema. Por outro lado, do ponto de vista secular, a imagem pode ser interpretada mais como um ato de vaidade ou imprudência do que como discurso de ódio religioso. Ainda assim, para um presidente dos Estados Unidos, o episódio foi considerado inadequado e gerou repercussão negativa entre seus apoiadores religiosos.
Além disso, o caso levanta questões sobre o uso de inteligência artificial para a criação de imagens que podem afetar sensibilidades religiosas e o debate sobre os limites da liberdade de expressão em sociedades pluralistas.