Mais de 700 trabalhadores que treinam IA da Meta na Irlanda enfrentam risco de demissão

Contexto das demissões na empresa contratada pela Meta
Mais de 700 funcionários da empresa irlandesa Covalen, contratada pela Meta para realizar serviços de moderação e anotação de dados para o treinamento de modelos de inteligência artificial (IA), estão prestes a perder seus empregos. A informação foi confirmada a partir de documentos obtidos pela WIRED, que detalham uma nova rodada de cortes de pessoal como parte de uma estratégia mais ampla de redução de custos da Meta.
Quem são os trabalhadores afetados e suas funções
Entre os trabalhadores ameaçados, aproximadamente 500 atuam como anotadores de dados. Essa função consiste em revisar conteúdos gerados pelos modelos de IA da Meta, verificando se estão em conformidade com as diretrizes da empresa que proíbem materiais perigosos ou ilegais. Isso inclui, por exemplo, detectar e sinalizar conteúdos relacionados a abuso sexual infantil ou incitação ao suicídio.

Segundo relatos de funcionários, o trabalho é desgastante e emocionalmente difícil, pois exige que os trabalhadores simulem situações extremas para identificar falhas nos sistemas de segurança da IA. "Você passa o dia inteiro fingindo ser um pedófilo", afirmou um dos colaboradores, destacando o impacto psicológico da atividade.
Motivações e reações às demissões
A Meta anunciou recentemente um plano para cortar cerca de 10% de sua força de trabalho global, com o objetivo de aumentar a eficiência e direcionar mais recursos para o desenvolvimento da tecnologia de IA. Em janeiro, o CEO Mark Zuckerberg afirmou que 2026 será o ano em que a IA transformará radicalmente o modo de trabalho na empresa.
No entanto, para os funcionários da Covalen, as demissões representam uma contradição, já que o trabalho realizado por eles é justamente o que alimenta o avanço da IA. "Estamos treinando a IA para substituir nossos próprios empregos", disse um funcionário que preferiu não se identificar, por medo de retaliação.
Os cortes foram comunicados em uma reunião por vídeo rápida, na qual os trabalhadores não puderam fazer perguntas, o que gerou insatisfação e sensação de desrespeito. Além disso, existe uma cláusula de "cooldown" de seis meses que impede que os demitidos se candidatem a vagas em outras empresas concorrentes da Meta, dificultando a recolocação no mercado.
Reações sindicais e perspectivas para os trabalhadores
O sindicato Communications Workers’ Union (CWU), que representa parte dos funcionários da Covalen, está buscando negociações para garantir melhores condições de desligamento e discutir com o governo irlandês os impactos da IA no mercado de trabalho local. A secretária-geral da UNI Global Union, Christy Hoffman, criticou a postura das empresas de tecnologia, que tratam os trabalhadores como descartáveis, e defendeu que os funcionários tenham direito de recusar o treinamento de suas substituições por IA.
Apesar da mobilização sindical, muitos trabalhadores demonstram pessimismo quanto à possibilidade de encontrar empregos estáveis em um mercado cada vez mais dominado por tecnologias que substituem funções humanas. "É uma batalha universal entre trabalhadores de colarinho branco e o grande capital", resumiu Nick Bennett, um dos empregados afetados.
Histórico recente e impacto na força de trabalho local
Esta é a segunda rodada de cortes promovida pela Covalen nos últimos meses. Em novembro de 2025, cerca de 400 vagas já haviam sido eliminadas, provocando inclusive uma greve dos funcionários. Com as novas demissões, a força de trabalho da empresa em Dublin deve ser reduzida pela metade.