Voltar para o blog
Notícias de IA

Nova Christchurch Call da Nova Zelândia pode impulsionar uma IA mais justa e segura

6 de abril de 2026
15:42
Ética em IAPrivacidadesegurança digitalIA responsáveltecnologia e políticaNova ZelândiadesinformaçãoInteligência ArtificialChristchurch Callsoberania de dados
Nova Christchurch Call da Nova Zelândia pode impulsionar uma IA mais justa e segura

Na Nova Zelândia, o uso da inteligência artificial (IA) cresce rapidamente, tornando-se tão comum quanto smartphones e redes sociais já foram. Segundo o relatório InternetNZ Internet Insights 2026, quase oito em cada dez neozelandeses utilizaram ferramentas de IA no último ano, e mais da metade faz uso semanal dessas tecnologias.

Preocupações crescentes em torno da IA

Apesar da popularidade crescente, há uma inquietação significativa sobre os impactos sociais da IA. Uma pesquisa recente indicou que metade dos entrevistados está muito preocupada com a desinformação, privacidade e possíveis usos indevidos da IA. Outras pesquisas nacionais corroboram essas preocupações: apenas um quarto dos participantes acredita que as salvaguardas atuais são suficientes para garantir o uso seguro da inteligência artificial, e dois terços afirmam que deixariam de usar produtos de empresas que geram dúvidas sobre o uso responsável da IA.

IA e suas ligações com poder militar e político

O envolvimento da IA em conflitos geopolíticos, como a guerra entre EUA e Israel contra o Irã, evidenciou a pressão militar sobre grandes empresas de tecnologia para permitirem usos militares amplos de seus sistemas. Enquanto Anthropic tentou impor limites para evitar aplicações como armas autônomas e vigilância, foi preterida em favor da OpenAI, que aceitou usos militares “legais”, provocando reações negativas e aumento nas desinstalações do ChatGPT.

Além disso, a China também utiliza sistemas de IA em seu aparato militar, e empresas como Palantir, ligada ao bilionário neozelandês Peter Thiel, fornecem ferramentas para conflitos em Ucrânia, Gaza e Irã. No cenário doméstico, o Ministério da Defesa da Nova Zelândia debate sua postura, mas o parlamento está dividido.

Esses fatos destacam como as empresas de IA avançada estão cada vez mais entrelaçadas ao poder estatal, borrando a linha entre tecnologia de consumo e instrumentos de guerra. Também revelam como essas tecnologias refletem valores e preconceitos dos seus criadores, configurando uma forma de “colonialismo digital” ao exportar valores de países dominantes para outras sociedades.

Oportunidade para a Nova Zelândia liderar em IA responsável

Apesar das preocupações, a Nova Zelândia adota uma abordagem regulatória “light-touch”, preferindo regras existentes ao invés de legislações específicas para IA. Isso limita a participação dos cidadãos nas decisões sobre desenvolvimento e uso dessas tecnologias, reforçando a sensação de que a IA acontece “para nós”, mas não “por nós”.

Embora haja temor de que o país fique para trás na corrida global pela IA, há um caminho alternativo: aproveitar sua reputação internacional por integridade, direitos humanos e pensamento independente para se posicionar como líder em IA responsável.

Exemplos como o Christchurch Call — iniciativa criada após os ataques às mesquitas de Christchurch em 2019 para combater conteúdo extremista online — mostram que a Nova Zelândia pode reunir governos e empresas de tecnologia em torno de padrões comuns. Uma nova chamada semelhante poderia focar em promover valores como justiça, responsabilidade, segurança e privacidade na IA.

O movimento de soberania de dados Māori já incorpora princípios de uso responsável, como kaitiakitanga (guardiões e zeladoria), tratando dados como taonga (tesouros sagrados) que merecem proteção cuidadosa.

Além de pressionar grandes empresas a adotarem salvaguardas concretas — como marcação digital (watermarking) e supervisão humana obrigatória por diversos grupos de governança —, a Nova Zelândia pode estabelecer padrões para relatórios de impacto ambiental e auditorias de vieses, alinhando a IA às expectativas locais.

O governo poderia colaborar com a indústria para definir práticas claras de IA responsável, apoiando o desenvolvimento de produtos locais que respeitem esses critérios. Essa postura não apenas reforça a segurança e ética, mas também representa uma vantagem competitiva em um mercado global onde a confiança é cada vez mais valorizada.

Desafios e próximos passos políticos

Pesquisas indicam que a defesa de uma IA segura e responsável tem apoio público, criando um mandato claro para ação. Porém, alcançar esse objetivo demanda liderança política firme e uma estratégia integrada. Em ano eleitoral, políticos devem ser instados a comprometer-se com uma IA que beneficie tanto a economia quanto a sociedade neozelandesa.

Links úteis