Papa Leo XIV usa Tolkien para criticar bilionários da tecnologia e alertar sobre os riscos da IA

No recente lançamento de sua primeira encíclica, Magnifica humanitas, o Papa Leo XIV fez uma referência inusitada e carregada de significado cultural ao autor católico J.R.R. Tolkien, conhecido mundialmente por O Senhor dos Anéis. O documento aborda a proteção da dignidade humana diante do avanço da inteligência artificial (IA), criticando o domínio crescente de um paradigma tecnocrático que reduz a criação a mero objeto de exploração.
Contexto da encíclica e crítica ao poder tecnológico
O Papa Leo XIV retoma preocupações já manifestadas por seu predecessor, o Papa Francisco, sobre a concentração de poder tecnológico nas mãos de poucos atores globais. Ele compara o impacto da IA à Revolução Industrial, lembrando a encíclica do Papa Leo XIII de 1891, que defendia os direitos dos trabalhadores em meio a transformações tecnológicas e expansão capitalista. A mensagem central é um alerta contra a redução do ser humano a "peças de um sistema" movido exclusivamente pela eficiência e lucro.

O uso simbólico de Tolkien e a crítica velada aos bilionários da tecnologia
O destaque da encíclica, porém, está na citação do mago Gandalf, personagem de Tolkien, que alerta para a responsabilidade individual em combater o mal presente em nosso tempo: "Não nos cabe dominar todas as marés do mundo, mas fazer o que estiver ao nosso alcance para socorrer os anos em que estamos, erradicando o mal nos campos que conhecemos, para que aqueles que vivam depois tenham uma terra limpa para cultivar".
Essa referência é especialmente significativa diante das interpretações controversas e por vezes equivocadas que bilionários do Vale do Silício, como Peter Thiel e Elon Musk, fazem das obras de Tolkien. Thiel batizou sua empresa de análise de dados como Palantir, nome de uma esfera de cristal usada para espionagem por Saruman, personagem traidor da saga, e apelidou seu fundo de investimento de "the precious" (o precioso), termo associado ao Anel do Poder, símbolo de dominação totalitária na obra.
Já Musk interpretou a trama como uma alegoria anti-imigração, afirmando que os hobbits representam os ingleses pacatos protegidos pelos "homens duros de Gondor" — um posicionamento que foi usado para defender figuras controversas da extrema direita e que ignora o contexto histórico da obra, inspirada nos horrores da Primeira Guerra Mundial e na crítica à industrialização e militarização.

Implicações práticas do posicionamento papal
Ao destacar Tolkien, o Papa Leo XIV parece direcionar uma mensagem direta aos líderes tecnológicos que buscam desenvolver uma inteligência artificial geral com capacidades superiores às humanas. Ele questiona se suas intenções são realmente voltadas para a cura de doenças e solução de problemas ambientais, ou se estão mais preocupados com a obtenção ilimitada de poder econômico e cultural.
Além disso, a encíclica denuncia a colaboração de empresas como a Palantir com órgãos de imigração e fiscalização, e critica o apoio desses bilionários a administrações políticas que utilizam IA para propaganda racista e decisões militares controversas, evidenciando o risco de concentração de poder e desigualdade social.
Reflexão final e convite à responsabilidade
Ao evocar a figura de Gandalf, o Papa convida a sociedade a agir localmente contra o mal conhecido, em vez de tentar controlar todas as forças globais, reforçando a importância da ética e responsabilidade no desenvolvimento tecnológico. Essa postura contrasta fortemente com as leituras distorcidas da obra de Tolkien que celebram o controle absoluto e autoritário.