Por que deixar a IA escrever nossos e-mails pode aumentar o volume de trabalho

Com o avanço das tecnologias de inteligência artificial generativa, como ChatGPT e Microsoft Copilot, muitos profissionais têm recorrido a essas ferramentas para automatizar tarefas repetitivas relacionadas à gestão de e-mails, como redigir, resumir e responder mensagens. Embora a promessa seja de maior eficiência e economia de tempo, um estudo recente publicado pelo The Conversation AI aponta que essa automação pode, na verdade, gerar mais trabalho e intensificar a sobrecarga comunicacional.
O papel social do e-mail no ambiente corporativo
Desde o primeiro e-mail enviado em 1971, essa ferramenta digital se tornou a espinha dorsal do trabalho de escritório, prometendo clareza e agilidade na comunicação. No entanto, o e-mail também funciona como um meio para demonstrar competência, manter relacionamentos e sinalizar autoridade dentro das organizações. Expressões comuns como “just looping you in” (só te colocando no circuito) ou “circling back” (retornando ao assunto) fazem parte de um código social que ajuda a navegar hierarquias e suavizar demandas.

Automação com IA: suavizando a forma, não reduzindo a carga
As ferramentas de IA atualmente disponíveis oferecem recursos para gerenciar a caixa de entrada, melhorar a gramática e ajustar o tom das mensagens, facilitando a elaboração de e-mails que soem mais polidos e amigáveis. Porém, ao reduzir o esforço necessário para enviar essas mensagens, a IA não elimina a necessidade de comunicação, mas pode intensificar a criação de e-mails performativos, onde a sinceridade é terceirizada e o volume de mensagens cresce.
O paradoxo do aumento de e-mails com a automação
Assim como a promessa da eliminação do papel com a chegada do e-mail não se concretizou — e, ao contrário, o uso de papel se reorganizou e até aumentou — a automação com IA provavelmente não reduzirá o fluxo de mensagens. Pelo contrário, ao tornar mais fácil enviar e-mails, pode incentivar o envio de mais comunicações, muitas vezes desnecessárias, todas com aparência profissional e urgente.
Implicações para o futuro do trabalho
Essa situação levanta uma questão central: se a IA pode automatizar a resposta e a elaboração de e-mails, por que ainda geramos tantas situações que demandam esse tipo de comunicação? O artigo sugere que talvez o e-mail esteja sendo usado como solução padrão para problemas de coordenação que poderiam ser resolvidos de outras formas, evitando e-mails performativos e check-ins desnecessários.
O desafio para as organizações será repensar suas práticas de comunicação, estabelecendo expectativas claras sobre quando uma resposta é realmente necessária e evitando a ritualização de conversas automatizadas, mesmo que eficientes.