Por que menos pessoas estão ouvindo novas músicas mesmo com o avanço das plataformas de streaming?

O desafio do mercado de novas músicas na era do streaming
Apesar de as plataformas de streaming terem ampliado o acesso a um vasto catálogo musical, uma pesquisa recente revela um paradoxo preocupante: o número de pessoas ouvindo músicas novas está em declínio significativo, especialmente na Austrália. O estudo do pesquisador Tim Kelly, da University of Technology Sydney, aponta para uma crise na economia da música nova, que afeta diretamente artistas emergentes e independentes.
Metodologia e análise dos dados
O estudo analisou os lançamentos musicais na Austrália entre os anos 2000 e 2024, focando na participação das músicas novas nas paradas da Australian Recording Industry Association (ARIA). Em 2017, o streaming liderado pelo Spotify se tornou o principal meio de distribuição musical, substituindo formatos baseados em compra, como CDs e downloads, por um modelo de acesso contínuo.
O método considerou a presença percentual de músicas novas entre os 100 singles e álbuns mais vendidos anualmente, bem como a receita gerada por esse segmento. A análise também levou em conta a inflação para medir a real variação econômica.
Resultados evidenciam queda expressiva na audiência e receita de músicas novas
- De 2000 a 2018, músicas novas representavam 99% dos singles e 78% dos álbuns no top 100 da ARIA.
- Entre 2022 e 2024, esses números caíram para 62% e 28%, respectivamente.
- A receita gerada por músicas novas na Austrália declinou 55% em termos nominais e 71% ajustada pela inflação desde 2000.
- Apesar do mercado musical como um todo ter dobrado de valor desde 2014, a receita com músicas novas cresceu apenas 4% no mesmo período.
Esse fenômeno não é exclusivo da Austrália. Nos Estados Unidos, por exemplo, a participação da música nova na receita total caiu de cerca de 65% no período pré-streaming para 25–30% na era do streaming.
Implicações para artistas e a indústria musical
O declínio do mercado de música nova afeta principalmente artistas emergentes e pequenos selos independentes, que dependem dessas receitas para sobreviver e crescer. Entrevistas com profissionais do setor indicam que as gravadoras têm reduzido seu papel no desenvolvimento de novos talentos, agravando o problema.
Além disso, a atual estrutura de remuneração das plataformas de streaming, baseada no modelo "pro-rata", valoriza igualmente todas as reproduções, sem diferenciar entre músicas novas e catálogo antigo. Isso elimina incentivos comerciais para priorizar lançamentos recentes.
Possíveis soluções e caminhos para o futuro
Uma proposta levantada pelo estudo é revisar o modelo de remuneração das plataformas, atribuindo maior valor às novas músicas para estimular investimentos e visibilidade. Historicamente, CDs de lançamentos eram vendidos a preço cheio, enquanto os de catálogo tinham preços reduzidos, refletindo os custos de desenvolvimento e incentivando a inovação.
Políticas públicas também são sugeridas como suporte para a indústria local, com iniciativas culturais que promovam a diversidade e o crescimento de novos talentos australianos.
Limitações da pesquisa e importância prática
Embora o estudo apresente dados robustos e uma análise abrangente, limitações incluem a dificuldade de mensurar o impacto de fatores externos, como mudanças no comportamento do consumidor e avanços tecnológicos que influenciam o consumo musical.
Entretanto, a pesquisa é crucial para compreender o impacto do streaming na sustentabilidade da indústria musical e para orientar políticas e estratégias que garantam a saúde econômica e cultural do setor a longo prazo.