O MacBook Pro de 16 polegadas ficou US$ 300 mais caro. O iPad Air de 11 polegadas saltou de US$ 599 para US$ 749. Até o HomePod Mini subiu US$ 30. Tim Cook classificou os aumentos como “inevitáveis” e descreveu os preços da Apple como “insustentáveis” — colocando a culpa diretamente nos pés da indústria de inteligência artificial.
RAMageddon: quando a IA compete com o consumidor
O fenômeno já tem até apelido: RAMageddon. A corrida armamentista da IA fez os preços de memória RAM dispararem porque fabricantes como Micron, Samsung e SK Hynix estão redirecionando linhas de produção para memória HBM (High Bandwidth Memory), usada em data centers de IA, em detrimento da memória DDR5 que vai para dispositivos de consumo.
“O preço da RAM disparou porque os fabricantes realocaram suas linhas de produção para produzir nova memória HBM para data centers de IA, abandonando a DDR5 de consumo”, explica Tim Derdenger, professor de marketing e estratégia da Carnegie Mellon University.
Não é temporário — é estrutural
Srikanth Jagabathula, professor da NYU Stern School of Business, é ainda mais direto: “O mesmo chip gera muito mais receita dentro de um servidor de IA do que dentro de um dispositivo de consumo.” E isso cria um desequilíbrio permanente. “Essa escassez não é temporária e pode se estender pelos próximos anos. Como o aumento é duradouro, simplesmente absorver o custo não é uma estratégia sustentável”, afirma Jagabathula.
O efeito cascata já atinge todo o ecossistema tech: o Xbox teve aumento de quase 25% dependendo do modelo, a Nothing cancelou o lançamento de um telefone inteiro, e até o Arduino foi pego na crise de memória. A Apple é apenas a mais recente a subir preços e apontar o dedo para a IA.
Margens recordes e a pergunta incômoda
Mas há um problema nessa narrativa. A Apple registrou lucros recordes por pelo menos quatro trimestres consecutivos, e suas margens em hardware são muito superiores à média da indústria — estimadas entre 30% e 40%, com o iPhone 17 Pro possivelmente chegando a 47%. A margem típica em smartphones fica entre 15% e 25%, e em laptops entre 10% e 25%.
Ari Lightman, também da Carnegie Mellon, descreveu como “certeira” a observação de que é difícil conciliar os balanços financeiros públicos da Apple com a descrição de Cook de que os preços são insustentáveis. Para Lightman, os aumentos são “sem dúvida” sobre apaciguar acionistas que exigem crescimento constante.
A história que Wall Street quer ouvir
Lightman aponta três pressões sobre a Apple: o atraso na corrida da IA, a incerteza em torno da instalação de John Ternus como novo CEO, e a falta de uma nova categoria de produto de sucesso. “Há muitas coisas em que os investidores podem bater neles. Se vão vender as ações para grandes investidores institucionais, precisam contar uma história muito boa.”
E essa história é de margens enormes e lucros crescentes — mesmo diante de custos em alta e restrições de oferta impulsionadas pela IA. Como resume o editor Terrence O’Brien: “Por que eu deveria ter que competir com Sam Altman para comprar um MacBook novo?”
A pergunta que fica é se os consumidores vão aceitar pagar a conta da infraestrutura de IA das big techs enquanto essas mesmas empresas reportam lucros recordes.



