Por que os Conselhos das Maiores Empresas Australianas Têm Poucos Especialistas em Tecnologia na Era da IA?

A transformação digital impulsionada pela inteligência artificial (IA) está remodelando a economia global e exigindo uma nova abordagem na governança corporativa. No entanto, uma pesquisa recente revela que os conselhos das maiores empresas listadas na Bolsa de Valores da Austrália (ASX) ainda têm poucos membros com expertise em ciência, tecnologia, engenharia e matemática (STEM).
O problema identificado pela pesquisa
O estudo conduzido por Natalie Elms e Ashesha Weerasinghe, da Queensland University of Technology, analisou a composição dos conselhos das 500 maiores empresas australianas entre 2007 e 2022. O objetivo era verificar se o avanço tecnológico, especialmente com a chegada da IA, refletiu-se em maior presença de especialistas em STEM nos conselhos.

Os resultados surpreenderam: enquanto os diretores com background em contabilidade, direito e finanças ocuparam 42% dos assentos em 2022 (um aumento em relação aos 40% em 2007), aqueles com expertise em STEM cresceram apenas de 8% para 13% no mesmo período. Mesmo em setores de alta tecnologia e saúde, profissionais de áreas tradicionais ainda predominam.
Método e dados analisados
Os pesquisadores examinaram o currículo e a experiência dos diretores para classificar suas áreas de conhecimento. A comparação temporal permitiu avaliar a evolução da composição dos conselhos diante das mudanças tecnológicas. Complementando, dados de 2025 do Watermark Search International Board Diversity Index indicam que a tendência persiste: 75% dos diretores têm experiência em contabilidade, finanças, direito ou gestão geral.
Por que a falta de especialistas em tecnologia é preocupante?
A composição do conselho influencia diretamente as estratégias e decisões de investimento das empresas. A pesquisa mostra que companhias com maior representação em STEM investem mais em inovação e são mais valorizadas pelo mercado. A expertise tecnológica é crucial para orientar estratégias de inovação, especialmente quando o CEO não tem formação na área.
Além disso, a ausência de conhecimento técnico aumenta a vulnerabilidade a riscos cibernéticos, um problema crescente na Austrália, onde ataques são registrados a cada seis minutos. Órgãos reguladores já alertam que a segurança cibernética é responsabilidade dos conselhos, reforçando a necessidade de membros com habilidades técnicas para supervisionar tais riscos.
Contexto nacional e internacional
O cenário australiano mostra-se desafiador frente à crescente demanda por inovação. Um relatório independente recente apontou que o sistema de pesquisa e inovação do país está "quebrado" e requer reformas profundas. Ainda assim, o governo federal tem demonstrado empenho em reverter essa situação, como evidenciado pelo memorando de entendimento assinado com a empresa global de IA Anthropic para expansão da infraestrutura de IA no país.
Investimentos em data centers e atração de grandes players tecnológicos indicam um ambiente propício para inovação, mas o sucesso dessas iniciativas depende da capacidade dos conselhos em acompanhar e gerir as transformações tecnológicas.
Limitações do estudo e perspectivas futuras
O estudo cobre até 2022, um momento em que a IA ainda estava em fase inicial de adoção corporativa. Embora dados mais recentes sugiram pouca mudança, é possível que a crescente atenção à tecnologia e os riscos associados impulsionem uma revisão na composição dos conselhos nos próximos anos.
Para que as empresas australianas aproveitem plenamente as oportunidades da era digital, é fundamental que os conselhos incorporem mais especialistas em STEM, capazes de guiar a inovação e proteger contra ameaças tecnológicas.