Sátántango: A experiência cinematográfica de 7,5 horas que desafia a crise de atenção

Em uma era marcada por relatos constantes sobre a crise de atenção, a exibição do filme Sátántango, do cineasta húngaro Béla Tarr, oferece um contraponto instigante. Com impressionantes 439 minutos (7,5 horas) de duração, esta obra-prima do cinema slow burn foi projetada para um público seleto e resistente, reunindo mais de 250 espectadores em uma sessão especial no Film at Lincoln Center, em Manhattan.
O que é Sátántango e por que é único?
Lançado em 1994, Sátántango retrata a decadência de um coletivo agrícola na Hungria, em um preto e branco sombrio que reforça sua atmosfera miserabilista. O filme é um ícone do subgênero conhecido como slow cinema, caracterizado por longas tomadas e uma narrativa que privilegia a duração e a contemplação. São apenas 171 planos em toda a película, com média de 2,5 minutos por cena — cerca de 60 vezes mais longos que a média dos filmes convencionais de Hollywood.

Um desafio para a atenção contemporânea
Em tempos em que o consumo de conteúdo é fragmentado e acelerado — com vídeos curtos e séries para maratonar —, sentar-se por horas a fio para assistir a um único filme é quase um ato de resistência. Relatos recentes apontam para uma redução da capacidade de concentração, especialmente entre jovens e crianças, que têm sido alvo de processos judiciais contra redes sociais por práticas consideradas viciantes.
Tyler Wilson, programador do Film at Lincoln Center, destaca que eventos como a exibição de Sátántango criam um espaço para a disciplina compartilhada da atenção: "Aqui está uma oportunidade para estar em uma sala, com a expectativa de permanecer, sem olhar para o celular ou conversar".
O impacto da experiência coletiva
Ao contrário de assistir ao filme em casa, dividido em partes, a sessão presencial de Sátántango com apenas duas breves pausas revelou-se uma experiência transformadora. O público, majoritariamente jovem, manteve-se atento, absorvendo cada movimento lento, cada detalhe visual — desde gotas de chuva até pequenas interações aparentemente triviais. As interrupções, como o ruído de embalagens ou notificações de relógios inteligentes, tornaram-se incômodos quase intoleráveis, evidenciando o compromisso coletivo com a atenção.

Além disso, a obra provoca uma reflexão sobre as dificuldades cotidianas e a superficialidade do que muitas vezes consideramos um problema de atenção, colocando em perspectiva os desafios enfrentados pelos personagens do filme.
Slow cinema e a valorização do tempo
Lexi Turner, professora que ministra seminários sobre slow cinema, explica que esse estilo cinematográfico convida à contemplação e exige paciência. Ao mostrar cenas prolongadas de pessoas caminhando ou do pôr do sol, esses filmes afirmam a dignidade de experiências que geralmente passam despercebidas no cinema tradicional.
O otimismo por trás da "brain rot" coletiva
Apesar do cenário cultural que aponta para a diminuição da capacidade de atenção, a popularidade crescente de filmes como Sátántango sugere uma reação positiva. Tyler Wilson observa um aumento no interesse por leituras mais longas e por produções cinematográficas radicais, indicando que o público ainda valoriza o investimento no tempo e na atenção.
Prova disso é o sucesso da sessão, que esgotou rapidamente e levou a adição de duas exibições extras.