Scout AI levanta US$ 100 milhões para treinar modelos de IA para operações militares autônomas

Em um avanço significativo no campo da inteligência artificial aplicada à defesa, a startup Scout AI, fundada em 2024 por Coby Adcock e Collin Otis, anunciou a captação de US$ 100 milhões em sua rodada Série A, liderada por Align Ventures e Draper Associates. A empresa desenvolve modelos de IA para controlar veículos autônomos militares e já havia recebido US$ 15 milhões em rodada seed no início de 2025.
Treinamento em ambiente militar real
Localizada em uma base militar não divulgada na Califórnia Central, a Scout AI mantém um campo de treinamento onde veículos todo-terreno autônomos de quatro lugares percorrem trilhas acidentadas para simular cenários de conflito. Esses veículos são operados por um modelo de IA chamado “Fury”, que inicialmente foca em apoio logístico e, futuramente, deverá controlar armamentos autônomos.

O CTO Collin Otis explica que o desenvolvimento desses agentes de inteligência artificial segue uma analogia com o treinamento de soldados: “Queremos começar com um nível básico de inteligência e evoluir para uma AGI militar altamente especializada”.
Tecnologia VLAs e aplicação prática
Scout AI utiliza modelos de Visão Linguagem Ação (VLAs), uma tecnologia baseada em grandes modelos de linguagem (LLMs) que permite controlar robôs de forma mais inteligente e adaptativa. Essa abordagem, pioneira em robótica desde 2023, possibilita que operadores humanos comandem múltiplos veículos autônomos com comandos simples, aumentando a eficiência e reduzindo a carga de trabalho em campo.
Durante a visita da equipe da TechCrunch, foi possível experimentar a condução de um ATV sob controle autônomo em terrenos complexos, onde o veículo demonstrou capacidade de adaptação a situações imprevisíveis, como curvas em areia solta e trilhas estreitas. O sistema também apresenta comportamento cauteloso, desacelerando para avaliar decisões quando encontra obstáculos ou ambiguidades.
Parcerias estratégicas e contratos militares
Scout AI já firmou contratos militares no valor total de US$ 11 milhões com instituições como DARPA, Army Applications Laboratory e outros órgãos do Departamento de Defesa dos EUA. Sua tecnologia integra o ciclo de treinamento da 1ª Divisão de Cavalaria do Exército dos EUA em Ft. Hood, Texas, com expectativa de adoção operacional em 2027.
A empresa posiciona-se como uma fornecedora de software, desenvolvendo uma camada de inteligência para veículos militares autônomos, ao invés de fabricar os veículos em si. Entre seus produtos, destaca-se o “Ox”, uma solução de comando e controle que permite a um soldado coordenar drones e veículos terrestres com comandos do tipo “vá até este ponto e vigie por forças inimigas”.
Impacto e desafios futuros
O uso de IA para operações militares autônomas levanta questões éticas e políticas, especialmente no que diz respeito ao emprego de armas autônomas. Scout AI destaca que seus sistemas podem ser configurados para exigir confirmação humana antes de engajar alvos, e que a tecnologia visa aprimorar a precisão e reduzir danos colaterais em comparação a métodos tradicionais, como fogo de artilharia indireta.
Adicionalmente, a empresa busca desenvolver um modelo próprio de IA, com base em dados militares específicos e treinamento contínuo em ambiente real, o que pode acelerar sua liderança rumo à inteligência artificial geral (AGI) no setor de defesa.
Contexto do mercado e posicionamento
Enquanto outras grandes empresas de tecnologia, como a Google, recuaram de contratos militares controversos, Scout AI assume uma postura clara de colaboração com o Pentágono e forças armadas americanas, apostando na integração de agentes autônomos para enfrentar desafios modernos de guerra, como o combate a enxames de drones inimigos.
O fundador Collin Otis destaca que a experiência prática em campo, com interação constante no mundo real, é um diferencial para o desenvolvimento de agentes de IA militar mais inteligentes e eficazes.