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Inteligência Artificial

Startup Cria "Computador Vivo" com 800 Mil Neurônios Humanos Capaz de Jogar Videogame

9 de junho de 2026
21:51
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Startup Cria "Computador Vivo" com 800 Mil Neurônios Humanos Capaz de Jogar Videogame

Startup Cria "Computador Vivo" com 800 Mil Neurônios Humanos Capaz de Jogar Videogame

Autor: Tiago Oliveira | Fonte: O Globo (10/03/2026)

CL1 computador vivo

Uma startup australiana acaba de apresentar algo que parece saído de um episódio de Black Mirror: um computador feito de neurônios humanos vivos. O dispositivo, chamado CL1, usa 800 mil células cerebrais cultivadas em laboratório conectadas a um chip de silício — e consegue jogar Doom em tempo real.

A demonstração foi feita pela Cortical Labs durante o Mobile World Congress 2025 em Barcelona. O vídeo mostra neurônios humanos processando informações do jogo, convertidas em sinais elétricos, e respondendo com comandos que controlam o personagem na tela. Mover-se, mirar, atirar — tudo comandado por tecido cerebral vivo.


Como funciona

O CL1 é descrito pela empresa como o primeiro computador biológico comercialmente viável do mundo. Seu núcleo contém cerca de 800 mil neurônios humanos derivados de células-tronco reprogramadas a partir de amostras de pele e sangue de doadores adultos.

Essas células crescem sobre uma matriz de eletrodos capaz de enviar impulsos elétricos e registrar as respostas do tecido neural em tempo real. Os neurônios recebem estímulos correspondentes às informações do jogo (inimigos, obstáculos, munição) e respondem com sinais que o sistema interpreta como ações.

Na demonstração pública com Doom, aproximadamente 200 mil neurônios processaram os dados e produziram os comandos. A exibição não foi publicada em estudo revisado por pares, mas a ciência por trás tem precedentes sólidos: em 2022, pesquisadores da empresa publicaram na revista Neuron que culturas neuronais semelhantes aprenderam a jogar Pong em poucos minutos, reorganizando-se espontaneamente.


Eficiência energética absurda

Enquanto data centers de IA consomem megawatts, o CL1 opera em escala biológica. O cérebro humano funciona com apenas 20 watts — comparável a uma lâmpada econômica. Segundo o cientista-chefe Brett Kagan, um rack com 30 unidades do CL1 consome menos de 1 quilowatt no total.

A proposta não é competir com GPUs da Nvidia em processamento bruto, mas atuar onde aprendizado adaptativo e eficiência energética são mais relevantes: robótica, descoberta de medicamentos e modelagem de doenças neurológicas.


"Neurônios como serviço"

O modelo de negócios é tão inusitado quanto a tecnologia:

Modalidade Preço
Dispositivo CL1 ~US$ 35.000 por unidade
Wetware as a Service ~US$ 300 por semana (acesso remoto)

No modelo "wetware as a service", pesquisadores podem utilizar culturas neuronais vivas hospedadas no laboratório da empresa, sem precisar manter infraestrutura de biotecnologia própria.


Quem está investindo

Entre os investidores da Cortical Labs está a In-Q-Tel, fundo de capital de risco associado à comunidade de inteligência dos Estados Unidos. O envolvimento de um fundo ligado à CIA/NSA indica que há interesse estratégico — e potencialmente militar — no desenvolvimento da tecnologia.


Neuralink ao contrário

O projeto da Cortical Labs representa o caminho inverso de iniciativas como a Neuralink, de Elon Musk:

Neuralink Cortical Labs
Coloca chips no cérebro Coloca cérebros no chip
Interface cérebro→máquina Tecido biológico dentro da máquina
Implante cirúrgico Cultivo em laboratório
Foco em interface neural Foco em computação biológica

Especialistas apontam que, no futuro, essas duas abordagens podem convergir na criação de interfaces híbridas entre inteligência biológica e computação digital.


As questões éticas

A empresa afirma que as culturas neuronais não apresentam estruturas associadas à consciência. Mas a expansão dessa tecnologia levanta perguntas que ainda não têm resposta jurídica:

  • Tecido humano pode ser usado em computação comercial?
  • Em que ponto uma cultura de 800 mil neurônios deixa de ser "tecido" e passa a ser "mente"?
  • Quem regula isso?

Para muitos especialistas, a discussão sobre o uso de tecido humano em computação comercial está apenas começando.