Trump força Anthropic a desligar Fable e Mythos — e o mundo acelera planos de IA soberana

Trump força Anthropic a desligar modelos Fable e Mythos — e o mundo acelera planos de IA soberana
No último fim de semana, a Anthropic atendeu a uma exigência da Casa Branca e retirou do ar seus modelos de IA mais avançados — Fable 5 e Mythos 5 — bloqueando o acesso para cidadãos estrangeiros, incluindo os próprios funcionários da empresa. A decisão, imposta com pouca explicação, reacendeu o debate global sobre dependência tecnológica dos Estados Unidos e acelerou planos de IA soberana em diversos países.
Reação em cadeia
No Reino Unido, o ministro de IA e Segurança Online, Kanishka Narayan, não mencionou Trump ou a Anthropic diretamente, mas usou o episódio para defender que o país precisa desenvolver sua própria capacidade de IA como questão de segurança nacional. "Tratamos todas as outras ameaças à nossa soberania com seriedade mortal, mas ainda não aprendemos a tratar esta da mesma forma", afirmou.
Na França, a reação foi ainda mais direta. O ex-primeiro-ministro Gabriel Attal, candidato à presidência pelo partido Renascença de Emmanuel Macron, chamou o desligamento de "o início da guerra de IA" e comparou o bloqueio dos modelos ao fechamento do Estreito de Ormuz pelo Irã — uma metáfora para o controle de um recurso estratégico vital.
O Canadá também entrou no coro. O primeiro-ministro Mark Carney disse que a situação mostra o risco de depender de um único parceiro para acesso a recursos cruciais como IA: "Ninguém fez nada de errado nessa situação. Mas teremos feito algo errado se apenas aceitarmos isso, não aprendermos a lição e não diversificarmos."
Corrida pela soberania
A China, que há anos defende suas empresas domésticas de IA, é um dos poucos países com modelos capazes de rivalizar com os laboratórios americanos — embora ainda fique atrás em algumas áreas. Parte da decisão da Casa Branca de retirar o Mythos teria sido motivada pela suspeita de que um grupo ligado à China teria acessado o modelo.
Mas IA soberana nem sempre significa construir os modelos mais poderosos. A francesa Mistral e a canadense Cohere mostram que esforços sólidos podem vir de fora do eixo EUA-China, mesmo que seus modelos não compitam de igual para igual. Outros países, como Singapura e Emirados Árabes Unidos, focam em infraestrutura e modelos otimizados para idiomas locais.
Confiança abalada
A Anthropic pode em breve reativar Fable e Mythos. Mas restaurar a confiança global na IA americana é outra história. O episódio expôs a fragilidade do acesso a modelos de fronteira dos EUA — e muitos governos não gostaram do que viram. A mensagem foi clara: se Washington pode decidir quem usa IA avançada, outros países precisam garantir que não ficarão de fora.
Por mais que o shutdown seja temporário, o dano geopolítico já está feito. A pergunta que fica não é se os modelos voltam ao ar, mas se alguém ainda confia que eles permanecerão acessíveis.