Ensaios de interfaces cérebro-computador disparam: número de voluntários mais que dobra

Ensaios de interfaces cérebro-computador disparam: número de voluntários mais que dobra
O número de pessoas com eletrodos implantados no cérebro mais que dobrou nos últimos dois anos, saltando de 67 voluntários identificados até o final de 2023 para uma estimativa de 150 atualmente. Os ensaios clínicos de interfaces cérebro-computador (BCIs) estão finalmente decolando — e os resultados são animadores.
O caso de Casey Harrell
Casey Harrell, um homem com ELA (esclerose lateral amiotrófica), é considerado o "primeiro power user" de um implante cerebral, segundo os pesquisadores que trabalham com ele. Paralisado e incapaz de falar sem o dispositivo, Harrell já passou quase três anos usando um BCI que permite "falar", navegar na internet e realizar seu trabalho como ativista climático de forma praticamente independente.
Implantado em julho de 2023 por uma equipe da Universidade da Califórnia em Davis, o dispositivo evoluiu significativamente desde então. Os pesquisadores refinaram a precisão e introduziram recursos como modo de privacidade e um "filtro de palavrões" que permite a Harrell conversar com a filha sem risco de xingamentos acidentais.
Para Harrell, o dispositivo é "nada menos que revolucionário". Permitiu que ele mantivesse sua renda, reconectasse com amigos e família e lesse para sua filha. Ele é um entre um número crescente de voluntários que, como ele mesmo diz, querem "pagar adiante e fazer a pesquisa científica... [e] obter algum benefício pessoal".
A explosão dos ensaios clínicos
Em 2024, Michelle Patrick-Krueger e colegas da Universidade de Houston publicaram um levantamento de todos os ensaios de BCI realizados entre 1998 (quando acreditam que o primeiro dispositivo foi implantado) e o final de 2023. Identificaram 21 grupos de pesquisa que testaram BCIs em 67 voluntários no total.
"Desde então, esse número aumentou muito", afirma Mariska Vansteensel, pesquisadora de BCI do University Medical Center Utrecht. Em janeiro, a Neuralink (empresa fundada pelo trilionário Elon Musk) anunciou que implantou seu dispositivo em 21 pessoas nos últimos dois anos.
Outras empresas também estão na corrida:
- Synchron: testa dispositivos na América do Norte e Austrália
- Neuracle (Xangai): realiza ensaios desde novembro de 2024 e obteve aprovação para uso fora de estudos clínicos
- Precision Neuroscience: cofundada por um ex-cocriador da Neuralink, testa um BCI que fica na superfície do cérebro
A China, inclusive, tornou-se o primeiro país a aprovar um BCI invasivo para uso médico — um marco que deve acelerar ainda mais o setor.
Como funcionam os BCIs
Os BCIs vêm em diferentes formas. O dispositivo de Harrell inclui eletrodos embutidos no cérebro que captam a atividade elétrica associada à fala, conectados a duas portas no topo da cabeça que se plugam em um computador. O software decodifica os sinais cerebrais em fonemas e prevê o que o usuário quer dizer.
Mas alguns BCIs são totalmente implantados e sem fio. Outros são menos invasivos, com eletrodos na superfície do cérebro ou até em toucas externas. Quanto mais próximo dos neurônios, melhor o sinal — mas maior o risco cirúrgico.
A equipe que trabalha com Harrell faz parte do BrainGate, projeto de pesquisa em BCI que já dura duas décadas. Nos primeiros 17 anos, o foco era comunicação "apontar e clicar" — controlar um cursor com atividade cerebral. Nos últimos anos, o time pivotou para decodificação de fala. Hoje, o dispositivo de Harrell usa um clone de voz baseado em gravações anteriores da sua própria voz.
Desafios pela frente
Apesar do progresso, os BCIs ainda são experimentais. A maioria dos implantes foi feita em pessoas com lesões na medula espinhal, e sabemos muito menos sobre como funcionam em outras condições como a ELA. Em alguns casos, dispositivos que inicialmente ajudaram pacientes — inclusive pessoas completamente travadas em síndrome de encarceramento — eventualmente pararam de funcionar. Os cientistas ainda não sabem exatamente por quê.
"A única maneira de descobrir é com mais pesquisa — e a participação de voluntários como Harrell", conclui a autora Jessica Hamzelou, do MIT Technology Review. A expectativa é que o campo esteja completamente diferente dentro de dois anos.
Fonte: MIT Technology Review



